Madeline, de cinco anos de idade, pulou no colo de seu pai.—Comeu o suficiente? —perguntou-lhe ele. Ela sorriu e deu uns tapinhas de leve na barriga. —Não agüento comer mais. Joe olhou para sua mãe, que estava no outro lado da mesa.—Parece que estamos todos satisfeitos. Não poderemos fazer mais nada esta noite a não ser ir para a cama. Madeline pôs suas pequenas mãozinhas nos lados do rosto de seu pai. —Mas papai, hoje é véspera de Natal. Disse que poderíamos dançar. Joe fingiu não se lembrar. —Disse isso? Não lembro de haver dito nada sobre dançar. —Mas papai — rogou Madeline —, nós sempre dançamos na véspera de Natal. Só você e eu, lembra? Um sorriso se desenhou sob o grosso bigode do pai. —É claro que lembro, querida. Como poderia esquecer? E dizendo isso, ficou em pé, tomou a mãozinha dela na sua e, por um momento, só por um momento, sua esposa estava viva de novo e os dois entravam no quartinho para passar juntos outra véspera de Natal como outras tantas que tinham passado, dançando até a madrugada. Teriam podido dançar o resto de suas vidas, mas veio a inesperada gravidez e as complicações. Madeline sobreviveu, mas sua mãe não. —Vêm papai — lhe disse, puxando-o pela mão —. Dancemos antes de que cheguem. Ela tinha razão. Logo soaria a campainha da porta e os familiares encheriam a casa e a noite seria já algo do passado. Mas por enquanto, só estavam papai e Madeline.
Mas, quando já tinha idade suficiente para dirigir um automóvel, Madeline decidiu que era suficiente adulta para dirigir sua própria vida. essa vida não incluía seu pai. E na véspera de natal embora estivessem sentados à mesma mesa, perecia que estavam em pontos diferentes da cidade. Madeline brincava com a comida sem dizer uma palavra. E Joe teria dado qualquer coisa para saber como falar com esta menina que antigamente se sentava em seus joelhos. Chegaram os familiares trazendo com eles um bem-vindo final ao desagradável silêncio. Ponha música, Joe lembrou-lhe um de seus irmãos. Assim fez. Pensando que seria uma boa idéia, dirigiu-se para onde estava sua filha: Dançaria com seu papai esta noite? Pela forma como ela se voltou, poderia se pensar que lhe havia falado algo insultante. Diante da vista de toda a família, dirigiu-se para a porta da rua, abriu-a, e se foi, deixando seu pai sozinho.
Muito sozinho.
Madeline voltou essa noite mas não por muito tempo. Joe nunca falhou com ela. Cozinhou a comida favorita dela. Ela não tinha apetite. Convidou-a para ir ao cinema. Ela se fechou em seu quarto. Comprou-lhe um vestido novo. Ela não agradeceu. Até que chegou aquele dia primaveril em que ele saiu cedo de seu trabalho para estar em casa quando ela chegasse da escola. Desde esse dia, ela nunca mais voltou para casa. Um amigo a viu perto da estação de ônibus, junto com seu Namorado. As autoridades confirmaram a compra de duas passagens para Chicago; para onde foram dali, ninguém sabe.
Chegou um dia que aquele rapaz decidiu que Madeleine não servia mais pra ele, desse modo, Madeline se encontrou com a noite pela frente, sem ter um lugar onde dormir nem uma mão que a sustentasse. Foi a primeira de uma série de muitas noites assim. Uma mulher no parque lhe falou de um lugar para desamparados perto da ponte. Por uns poucos dólares ela poderia obter um prato de sopa e uma cama de armar. Madeline virou a cabeça para o lado da parede e pela primeira vez em muitos dias, pensou no rosto barbudo de seu pai e em como lhe dava um beijo todas as noites. Mas quando as lágrimas quiseram brotar de seus olhos, resistiu ao choro. Colocou a lembrança bem fundo em sua memória e decidiu não voltar a pensar em sua casa. Tinha chegado tão longe que já era impossível voltar. Na manhã seguinte, a jovem que ocupava a cama de armar ao lado da sua lhe mostrou um punhado de gorjetas que tinha ganho dançando sobre as mesas. Aqui está o endereço, disse, lhe entregando um papelzinho.Só de pensar nisso, o estômago do Madeline começou a revirar. Tudo o que conseguiu fazer foi resmungar:«Vou pensar. Ela passou o resto da semana nas ruas procurando trabalho. No final da semana, quando tinha que pagar a conta no refúgio, procurou em seus bolsos e tirou o papelzinho. Era tudo o que sobrara.
Se Madeline sabia fazer algo, era dançar. Seu pai lhe tinha ensinado. Agora, homens da idade de seu pai a observavam. E talvez nunca teria pensado nisso, se não fosse pelas cartas que o primo do seu ex , lhe levava . Não uma, nem duas, mas sim uma caixa cheia. Todas dirigidas a ela. Todas de seu pai. Seu ex-namorado deve ter delatado você. Chegam duas ou três destas por semana, queixava-se o primo. Mande seu novo endereço. Pois passara um tempo hospedada na casa dele. Ah, mas ela não podia fazer isso. Seria encontrada. Não se atrevia a abrir as cartas. Sabia o que diziam: que voltasse para casa. Mas se soubesse o que ela estava fazendo não lhe escreveria. Pareceu-lhe menos doloroso não as ler. Guardou-as no guarda-roupa do clube onde dançava, organizadas de acordo com a data do carimbo do correio. Passava seus dedos por cada uma, mas não se atrevia a abri-las. Na maior parte do tempo Madeline conseguia controlar suas emoções. Os pensamentos do lar e os pensamentos de sua vergonha se fundiam no mesmo cantinho do seu coração. O correio continuou chegando e o primo queixando-se à medida que crescia a quantidade de cartas. Ela continuava decidida a não mandar seu endereço. E continuava sem ler as cartas.
Então, poucos dias antes da véspera de Natal, chegou outra carta. O mesmo envelope. A mesma cor. Mas esta não tinha o carimbo. Nem foi entregue pelo primo. Estava sobre a mesa do quarto de vestir do local onde dançava. Faz 2 dias um homem muito robusto veio e me pediu que lhe desse isto, explicou uma das outras bailarinas. Disse que você entenderia a mensagem. Ele esteve aqui? perguntou ansiosa. Madeline engoliu em seco e olhou o envelope. Abriu-o e extraiu um cartão.Sei onde está, leu. Sei o que faz. Isso não muda o que sinto. Tudo o que eu disse em cada uma das outras cartas continua sendo verdade. Mas eu que não sei o que ele me disse», pensou Madeline. Pegou uma carta da parte superior da pilha e a leu. Em seguida fez o mesmo com uma segunda, e uma terceira. Cada carta tinha a mesma frase. Cada frase fazia a mesma pergunta. Depois de alguns minutos o chão estava cheio de papel e seu rosto banhado em lágrima.
Antes de ter passado uma hora, se encontrava a bordo de um ônibus. Tomara que chegue a tempo, dizia ela. Joe saiu da cozinha e se deparou com uma moça que em uma mão, sustentava uma mochila. E na outra, segurava um cartão. Joe viu a pergunta em seus olhos. A resposta é "sim", disse a seu pai. E assim, os dois voltaram a dançar nessa véspera de Natal!Sobre o chão, perto da porta, permanecia jogada uma carta aberta dirigida a Madeleine e o rogo de seu pai:

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